A Tela em Revista, Cinearte n02 – 10/03/1926

O texto a seguir, pertence a sessão “Tela em Revista”, da revista Cinearte, edição nº 02 de 10 de março de 1926, páginas 28 e 29. O autor que não se identifica trata da programação do Cine República e o Cine Santa Helena. Neste último, foi exibido o filme, hoje desaparecido, “Passei a Vida Num Sonho”, do Cine-Club de São Paulo, dirigida por Francesco de Rosa e produzida por Jayme Redondo, a primeira produção do cineclube. Foi preservada a grafia original.

SÃO PAULO

REPUBLICA:

“O homem sem consciência” (The Man Without A Conscience). — Warner Brothers. — Producção de 1925. — Eu estava um tanto aborrecido. Nuvens passageiras de máo humor toldavam o horizonte quasi sempre limpido da minha alegria. Neste estado de animo é que entrei o Cine Republica para assistir “O homem sem consciência”.

A orchestra, o ambiente, as melindrosas e os respectivos, as pinturas exaggeradas, os cabeilos escandalosamente curtos.as saias apostando que subirão por sobre as ligas, tudo immensamente “páo”. Tudo aborrecido, Emfim. lá surgem no “white-board” Willard Louis, Irene Rich, John Patrlck, June Marlowe, Robert Agnew, Helen Dunbar e William Orlamond. Formam o enredo. Desenvolvem-no. Não chegam nem a agradar! Como um máo final não calha no paladar dos burguezes frequentadores de cinemas aos domingos e coronel a valer, emendam umo desastradíssimo final.

Willard Louis vae bem. Falha em certas expressões, não é um actor admirável, mas em geral agrada. Irene Rich a nos relembrar a sua admiravel interpretação na “A Mulher Perdida”. John Patrick, o organizador de farras dos films “jazz” com aquella cara de palerma faz horror representando a serio. Lew Cody ou Lewis Stone fariam outra figura neste papel. June Marlowe, coitada, só serve mesmo para “leading-woman” do “Rin- Tin-Tin”, e assim mesmo as revistas americanas dizem que ella estraga os films do já celebre cão!… Robert Agnew pouco apparece o que faz não desagrada. Helen Dunbar é a classica dama da alta roda que repudia o noivo sem “arame” pelo sordido endinheirado. William Orlamond é um dos que cáem nos ‘‘contos do vigário” que o Willard prega.

Não serve para creanças. Eu sei que hoje em dia ellas são muito adiantadas, todavia é preferível que se lhes corrija a moral vendo “Peter Pan”.

James Flood tem neste film uma direcção bem mediocre. Millard Webb ou Harry Beaumont alcançariam outro successo.

‘‘Suggestões para reclame”: — Os nomes dos artistas mais conhecidos. Ha cinemas que só usam um nome e dos sem importância. O film é da Warner.

SANTA HELENA:

Passei a vida num sonho”. O Cine Club, sociedade ha pouco tempo formada, tem também um grupo de amadores (assim rezam os programmas) e já, parece, estão resolvidos a filmar alguma cousinha. “Passei a vida num sonho”, a primeira tentativa, é um fracasso em dois actos. Georgette Ferret, a interprete, não e má. Sympathica, elegante e com uma interpretação mil furos acima da Rosa de Maio que fez o fracasso de “Gigi”. Luis Alonso, é um rapaz attrahente, mas seria de optimo aviso desistir do intento. É positivamente incapaz. Com o tempo poderá ser mediocre. Jayme Redondo, autor do argumento, se não me engano interprete de um dos papeis (não ha letreiros elucidativos) é também o acompanhador massante do film ao violão… ultima invenção cinematographica.

Aquella primeira visão, na praia, com uma das desillusões do Alonsito, é uma cousa ensossa e despida de qualquer vislumbre de realidade. O baile é um absurdo. A orchestra que nelle toca está muito mal apresentada. O “jazz-band” do “Cabaret Tip-Top” está bom e o ambiente tem alguma cousa de real.

O final é um desastre…

Photographia escura e péssima direcção. Francisco De Rosa deve desistir. Em relação, porém, não é um máo ensaio. Com muita força de vontade, melhores enredos, aperfeiçoando a Georgette Ferret e pondo o Alonso de lado; conseguindo um bom director e dilatando o capital para um emprehendimento que se queira apresentar ao publico, é possível que se faça uma obra regular. É, ao menos, o que eu espero, pois sou, posto que dê valor ao bom e “cacetadas” ao ruim, um ardente admirador do cinema brasileiro e tenho immensa fé em vêr ainda bons e esplendidos films nacionaes.

Avante “Cine Club”! Um revez não é uma derrota! Tentem de novo… “Piano, piano…” (Não estou aconselhando a ninguém que deixe de tocar violão!)

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