Arte de Visualisar

(Escripto especialmente para o “Cinearte”, pelo director-proprietario da Visual, Adalberto de Almada Fagundes).

Diz um psychologo: “desde as mais remotas éras do homem pre-historico, através de milhares de séculos na marcha ascendente da humanidade, a imaginação foi sempre a base do seu progresso.” Assim, pois, a cinematographia, a mais nova das artes, vae tambem buscar na imaginação a base para o seu adeantamento. E a educação da faculdade visual é a porta triumumphal que nos dá accesso a essa engenhosissima arte.

Torna-se, portanto, a todos aquelles que desejarem dedicar-se a taes estudos educar o mais depressa possivel a sua faculdade visual, porque da sua perfeita educação e completo dominio depende muito directamente o progresso de um futuro escriptor cinema-tographico. E a faculdade visual, para satisfação dos apaixonados da oitava arte, é docil e meiga, adaptando-se com presteza e acerto ás suas novas attribuições. Olhos da mente, eis outro nome pelo qual é chamada a faculdade visual.

Esta não é somente encontrada no cerebro humano em qualquer dos seus gráos de intelligencia, pois, na opinião de alguns autores, os animaes são também dotados dessa faculdade.

Regras fixas existem, pois, para o cultivo da faculdade visual. Frank Channing Haddoch, nos diz algures: “a cultura da imaginação envolve todas as faculdades do cerebro, dando-nos um poder supremo de efficiencia. A applicação continuada da imaginação a um gráo elevado de cultura para os misteres da vida requer os melhores e os mais poderosos exercícios de força de vontade. E isso quer dizer que a vontade será cultivada por completo. Applicando-se, portanto, ao cultivo da faculdade visual para um proposito definido, e educando-se a imaginação para usa-la como escriptor de ficção, ganha-se também no mais alto gráo de desenvolvimento do nosso eu no justo interesse da razão, justiça e dos motivos reaes da existência.”

A Universidade de Columbia, na cidade de Nova York, dá aos seus alumnos, nos exames preliminares de entrada, além das provas regulares, alguns exercícios bem interessantes. Dois desses problemas applicados á imaginação visual podem servir-nos de esclarecimento neste trabalho.

O professor toma uma folha de papel, dobra-a ao meio e volta a dobra-la uma segunda vez. Com uma tesoura faz um corte em fórma de triângulo na margem que apresenta uma só dobra, escondendo da vista dos alumnos esse pedaço de papel. Póe sobre a mesa, exposta á vista dos examinandos, a folha dobrada como se acha. Isso feito, manda-os desenhar em uma outra folha de papel, como deve apparecer na mesma o corte por elle feito. Desenham-se na folha de papel as dobras e marca-se a fórma e o logar onde foi feito o corte.

Ao executar, porém, essa prova não é permittido aos alumnos dobrarem a folha de papel, devendo resolve-la só mente pela imaginação. A sua solução depende unicamente da ‘‘imaginação constructiva visual.”

Na prova das caixas, o professor diz: ‘‘Vêm esta caixa? Ella contém duas outras caixas menores e cada uma dessas caixas menores encerra outras duas caixas ainda menores. Quantas caixas são ao todo?”

A resposta, naturalmente, é simples, porém, requer da parte dos estudantes um regular desenvolvimento da em meio minuto e personagem qualquer nos. futuros exercícios de visualisação. Sentado á cadeira, de olhos cerrados vemos a porta abrir e uma pessoa entrar. Observamos muito cuidadosamente e em todos os seus detalhes a côr do vestuario, expressões physionomicas e seu característico. O personagem dá alguns passos e à porta assoma uma segunda pessoa que se aproxima da primeira. Ao falarem, elles se entreolham e o tom de suas vozes chega ao nosso ouvido muito nitidamente, não destoando das suas personalidades, pois são genuinas creações de carne e osso.

Continuamos com esses exercícios até que tenham adquirido perfeito dominio da faculdade visual, para então proseguir com os exercícios em logares movimentados, á luz do dia e com os olhos descerrados. Em um bonde, por exemplo, vemos uma pessoa interessante, observamos as suas emoções e movimentos caracteristicos, voltamos mais tarde a visualisa-lo em todos os seus minimos detalhes. Agora o bonde pára a uma esquina e lá está um typo original. Passamos logo a observa-lo e, centralisando o personagem, usamos o local para o scenario da scena. Devemos notar tudo quanto fôr de interesse alli passado naquelle momento, movimentos, expressões e palavras articuladas pela figura central conjunctamente com os detalhes do local da scena, as construcções, a côr dos prédios, se ha vehiculos, animaes, etc. Agora ao partir o bonde vae-se visualisando toda a scena.

Logo que a faculdade visual já vae sem grande esforço reproduzindo scenas observadas ao correr do dia, procuramos transporta-las para o papel. Notaremos então, que a escripta é puramente objectiva, cinematographica; porque a camara não photographa palavras mas sim scenas visualísadas. O trabalho tem vida e personalidade, são as próprias personagens que falam ao desenrolar das scenas, evitando-se, assim, nas composições cinematographicas, um mar de palavras inúteis que de nada servem em um photodrama.

As scenas devem ser visualísadas uma a uma e em todos os seus mais insignificantes detalhes. Os titulos falados devem ser aquellas mesmas palavras articuladas pela própria personagem em seus differentes estados de emoção, cada uma com a sua personalidade fixa, heroina, galã ou villão.

Para melhor comprehensão da continuidade cinematographica nas divisões das scenas e com a mesma technica applicada no “Visualisador”, peço venia ao intelligente leitor para passar em revista dez scenas da minha comedia-dramatica “Centro e Peripheria”, prompta para ser filmada.

Continuidade Cinematographica

Sub-Titulo 1 – NA PERIPHERIA

Esclarecendo

1 – Ext. Chacara — (P.) Ao longe se vê uma modesta, porém, aprazível vivenda — Dionysio com um laço na mão surge em scena e, correndo, dirige-se para um dos lados da casa.

íris até circulo

Sub-Titulo 2 — DIONYSIO, o heroe de Santo Amaro

2 – Ext. Quintal ao lado da casa — Chacara — (S. B. de Dionysio). Dionysio, com o olhar fixo fóra da scena, vae machinalmente desenleando o laço.

3 – Ext. Quintal — Chacara — (M. P.) Dionysio surge no canto da casa e avista um grande bóde preto que lá está — elle avança para o bode e atira o laço acertando em cheio a laçada — dois meninos entram em scena e batem palmas, gritando, bravos, bravos, — Dionysio, segurando o laço, olha e sorri.

4 – Ext. Quintal — Chacara — (P.) O bode corre para o meio do quintal, arrastando Dionysio — Dionysio segue-o e ao mesmo tempo vae se approximando do bode pela corda — os dois meninos observam Dionysio interessados — corte.

Sub-Titulo 3 — D. ANNA, mãe de Dionysio

5 – Int. Sala de jantar — Chacara — (B. de D. Anna.). D. Anna, commodamente sentada numa cadeira de balanço, lê “Secção de Annuncios”, em um jornal — ella procura ‘um emprego para Dionysio — alli está um annuncio que lhe convém — D. Anna endireita-se na cadeira e lê com animação:

Sub-Titulo 4 — (Facsimile do annuncio) — Precisa-se de um menino para trabalho de escriptorio. Dirigir-se á Rua do Arco n. 1. Escriptorio do Sr. A. D’Alvar.

Para scena. f

D. Anna deixa vêr no seu semblante a sua satisfação pelo feliz achado.

6 – Int. Sala de Jantar — Chacara — (M. P.) D. Anna levanta-se com o jornal na mão, olha em redor da sala, dá alguns passos em dirccção á porta e chama:

Tit-falado 1 — “Dionysio!… Dionysio!…”

Pára a scena.

D. Anna volta a lêr o jornal e sahe da

scena pela porta – corte,

7 – Ext. Quintal — Chacara — (M. P.) Dionysio vae passando o laço ao redor de um poste para alli atar o bode — os dois meninos espantam o bode para que elle se approxime do poste – corte.

8 – Ext. Porta de entrada — Chacara — (S. B. de D. Anna) D. Anna entra em scena, olha para o quintal e acena chamando Dionysio — corte.

9 – Ext. Quintal — Chacara (M. P.) Dionysio, ás presas, termina de atar o bode ao poste e olha para sua mãe, que o chama — os meninos vào se approximando do bode — corte.

10 — Ext. Porta de entrada — Chacara — (S. B. de D Anna) D. Anna, parada á porta, chama Dionysio — Dionysio approxima-se correndo. D. Anna mostra-lhe o jornal e satisfeita diz estar alli um emprego para elle — ella empurra Dionysio para dentro da porta e entra.

Para maior esclarecimentos dos termos usados ao descrever essas scenas, passaremos em revista toda a sua tcchnologia.

Sub-Titulo 1 — Toda palavra ou phra- se usada antes de uma scena ou sequência de scena, e não articulada pelos artistas chama-se sub-titulo.

“Esclarecendo” — Subentende-se que a scena seguinte vae gradativamente apparecendo até tomar-se completamente visivel.

Scena 1 – Toda acção de um photo- drama filmado sem paragem de machina chama-se scena.

Ext. — Abreviação de exterior e quer dizer que a scena passa-se em uma localidade qualquer.

Chacara — Indica-nos o local da scena, ficando, porém, a sua escolha ao arbitrio do director.

(P.) — Abreviação da palavra palco e

quer dizer que o operador deve collocar a carnara a uma distancia tal que apanhe uma vista de todo o local. O numero de metros a filmar fica a juÍ20 do operador, pois, para isso, elle tem conhecimentos technico.

Íris até circulo —- Informa ao operador que feche gradualmente o iris da cama- ra, parando em circulo.

(S. B. de Dionysio) — Abreviação de semi-busto. Quer dizer que o operador é permittido photographar o actor sómente da sola dos sapatos até um pouco acima dos joelhos e avisa ao director que o actor terá que registrar nessa scena alguma emoção.

(M. P. ) – Abreviação de meio palco,

isto é, o operador deve collocar a carnara a uma distancia qu* photographe sómente metade da scena.

Corte – A palavra corte no fim da scena n. 4, quer dizer que a acção dessa scena está em parallelo com uma outra e que o seu conjuncto faz um todo de acção. Também serve para chamar a at- tenção do director na montagem do film.

Int. – Abreviação de interior quer dizer que a scena é filmada no “studio” e photographada com luz artificial.

Sala de jantar — Indica-nos o local da scena

B. de D. Anna — Abreviação de busto. Indica ao operador que a carnara deve sómente apanhar o busto do actor (dois metros mais ou menos do actor) e que o director tem que fazer o artista registrar alguma emoção, como no semi-busto.

Pára scena – Informa-nos que a scena foi interrompida na sua acção por algum sub-titulo ou titulo falado, etc. e que deve continuar.

Tit.-falado 1 – Usa-se quando o actor diz alguma cousa de consequente; palavras sem importância para a continuidade da acção não devem ser usadas r.os títulos falados, porque serve sómente para baralhar a acção.

Ha ainda outros termos technicos usados na continuidade, porém, não tendo sido empregados aqui nestas scenas, deixamos de especifical-os.

Ao fechar este artigo não seria justo deixar de citar o nome do Sr. Frederick Palmer, uma das maiores autoridades em assumpto cinematographico na America do Norte e fundador da “Palmer Photo-Play Corporation”, o maior centro intellectual de cinematographia do globo e de onde irradia para os mais longínquos recantos da terra a mais perfeita instrucção de technica cinematographica. Foi, pois, seguindo os conselhos desse muito bondoso mestre que eu pude, após ingentes esforços, e sempre coadjuvado pela magia do genio de Frederick Palmer, absorver a technica dessa maravilhosa arte que, em traços geraes, aqui deixo.

S. Paulo, Dezembro de 1925.


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